Momento com o Celular


No século XXI, observamos uma transformação significativa nos rituais de celebração e reconhecimento. O que outrora era marcado pelo aplauso físico, hoje se vê substituído pela captura de imagens e vídeos com dispositivos móveis. Este fenômeno contemporâneo não é meramente uma mudança tecnológica, mas um sintoma que revela profundas nuances do desejo e da subjetividade no sujeito moderno. Imagine uma situação que todos estão aplaudindo um artista, uma pessoa sem veemência aplaude ou um grupo deixa de aplaudir. Será que o aplauso é algo só para o artista, ou podemos considerar que ele sempre foi um fenômeno que fala de si, do grupo e do artista.


Para Lacan, o desejo é constituído pelo Outro. O sujeito não apenas deseja algo; ele deseja ser desejado pelo Outro. Gravar o momento com o celular pode ser compreendido como uma manifestação do desejo de se inscrever na ordem simbólica de forma permanente. O ato de gravar não é apenas para preservação pessoal, mas para ser partilhado e reconhecido por outros. Ao capturar e compartilhar, o sujeito busca uma confirmação contínua de sua existência e relevância.

No universo lacaniano, os significantes estruturam nossa realidade. A prática de gravar momentos pode ser vista como uma tentativa de inscrever um novo significante na cadeia do discurso social. O aplauso físico, efêmero e sonoro, cede lugar a uma marca visual e duradoura que pode ser revisitada e recontextualizada. Este deslocamento aponta para uma mudança na maneira como os sujeitos se relacionam com o tempo e a memória.

Lacan postulou que a formação do eu está intrinsecamente ligada ao estágio do espelho, onde a criança se reconhece pela primeira vez em seu reflexo. De maneira análoga, o ato de gravar com o celular pode ser visto como uma busca constante por essa imagem refletida. No entanto, agora o espelho é a tela do dispositivo, e o reflexo é mediado por redes sociais e plataformas digitais. O sujeito busca incessantemente sua imagem refletida no olhar do Outro, que agora se materializa em curtidas, compartilhamentos e comentários.

A distinção entre a realidade virtual e o Real, no sentido lacaniano, torna-se crucial aqui. O Real, que escapa à simbolização completa, está sempre além da captura. O ato de gravar tenta, de maneira ilusória, apoderar-se desse Real, fixando momentos que, paradoxalmente, são já perdidos no ato mesmo de serem capturados. Esta tensão entre o desejo de fixação e a inevitável perda do momento revela a estrutura trágica do desejo humano.

O novo aplauso, a vontade de gravar o momento com o celular, não é apenas uma mudança de hábito, mas uma expressão profunda das dinâmicas do desejo e da formação do sujeito na era digital. Lacan nos ensina que o desejo é sempre do Outro e, nesse contexto, o celular se torna o novo mediador desse desejo, um objeto através do qual buscamos nossa própria imagem refletida e confirmada pelo olhar alheio. Assim, o aplauso digitalizado torna-se um rito contemporâneo, revelador das complexas interações entre o simbólico, o imaginário e o Real.


Desta forma gostaria de realizar uma crítica para artistas e indivíduos que veem negativamente o uso de celulares para gravar momentos, poderia explorar a hipocrisia inerente a tais críticas, bem como os complexos processos de transformação cultural e simbólica que ocorrem ao longo do tempo. Podemos refletir sobre como o desejo de reconhecimento e gozo está implicado nessas práticas e atitudes.

O advento da tecnologia móvel, especialmente o celular com capacidade de gravação(smartphone), transformou profundamente as interações sociais e culturais. Muitos artistas e indivíduos têm criticado a presença ostensiva de celulares em eventos culturais, vendo essa prática como uma distração ou uma diminuição da experiência autêntica. No entanto, essa crítica pode ser compreendida como um sintoma da hipocrisia e da resistência à transformação dos rituais de gozo e reconhecimento no mundo contemporâneo.

Historicamente, as práticas de apreciação e celebração variaram significativamente. Durante muitos séculos, a igreja católica, por exemplo, considerava o aplauso durante as cerimônias uma falta de respeito. No entanto, hoje em dia, vemos congregações onde o aplauso, o canto e até a dança são formas aceitáveis e até incentivadas de expressão. Esta mudança revela como as práticas simbólicas e rituais estão em constante evolução.

Os artistas, ao criticar o uso do celular, frequentemente argumentam que essa prática impede a experiência autêntica de sua arte. Contudo, tal crítica ignora a natureza do desejo de gozo que o próprio artista busca evocar em seu público. O artista, de fato, espera que seu público goze com o espetáculo, mas deseja controlar a forma desse gozo. Essa postura é, em si, paradoxal, pois o desejo do Outro, que o artista tanto busca, é fundamentalmente incontrolável e imprevisível.

Para Lacan, o desejo é sempre do Outro. O celular, nesse contexto, se torna um novo mediador através do qual o sujeito busca reconhecimento e validação. Ao gravar um momento, o sujeito não está apenas capturando uma memória pessoal, mas inscrevendo-se na ordem simbólica de forma a ser reconhecido e confirmado por uma audiência mais ampla. A crítica ao uso do celular, portanto, pode ser vista como uma resistência à nova forma de mediação do desejo que desafia os modos tradicionais de reconhecimento e gozo.

Em diversas culturas, as formas de celebração e participação em rituais variam amplamente. Instrumentos musicais, danças, e outras expressões são integradas de maneiras distintas em diferentes contextos. O que vemos atualmente com o uso do celular é apenas uma extensão dessa diversidade cultural. A gravação de momentos é uma nova forma de estar presente, uma nova forma de inscrição simbólica que reflete as transformações tecnológicas e culturais do nosso tempo.

A crítica ao uso do celular em eventos culturais é, em grande parte, uma expressão da hipocrisia e da resistência à mudança. O desejo de gozo e de reconhecimento, tanto por parte dos artistas quanto do público, encontra novas formas de expressão na era digital. O celular, como novo mediador do desejo, desafia as formas tradicionais de interação e celebração, refletindo as dinâmicas complexas e em constante evolução do simbólico, do imaginário e do Real. Assim, ao invés de criticar, devemos compreender essas práticas como parte da contínua transformação dos rituais de gozo e reconhecimento no mundo contemporâneo.


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