Kierkegaard

 O sujeito lacaniano é marcado pela falta, que surge no momento da entrada na ordem simbólica, onde o "Nome-do-Pai" instaura a lei e a linguagem que o organizam. O sujeito é, portanto, o resultado de um desejo que nunca é plenamente satisfeito, já que está sempre em busca de um objeto perdido que, na verdade, nunca foi possuído.Kierkegaard, por outro lado, aborda o sujeito a partir de uma perspectiva existencial. Argumenta que a existência é marcada pela angústia, que não é meramente um sentimento, mas uma condição ontológica. A angústia é a vertigem da liberdade, o reconhecimento da possibilidade infinita do Eu. Para Kierkegaard  o sujeito é constantemente confrontado com escolhas que definem sua existência, e é através dessas escolhas que ele se torna autenticamente  si-mesmo.


A comparação entre Lacan e Kierkegaard revela que ambos reconhecem uma falta constitutiva no sujeito, embora a situem em âmbitos distintos. Lacan posiciona essa falta na estrutura simbólica e na linguagem, enquanto Kierkegaard a localiza na existência e na liberdade. O ponto de convergência reside na ideia de que o sujeito nunca é completo ou pleno, mas está sempre em busca de algo que o ultrapassa.A angústia em Kierkegaard pode ser vista como um precursor do conceito lacaniano de desejo. Para Kierkegaard, a angústia emerge da possibilidade do poder ser, um reconhecimento de que o Eu pode escolher seu próprio caminho, mas que essa escolha é carregada de incerteza e medo. Lacan, por sua vez, descreve o desejo como algo que nunca é completamente realizado, pois está enraizado na falta, sendo o desejo do Outro aquilo que estrutura o sujeito.


A angústia, nesse sentido, pode ser entendida como o ponto de encontro entre essas duas perspectivas. Em Lacan, o desejo é sempre "desejo do Outro", uma busca incessante por algo que o sujeito percebe como ausente. Em Kierkegaard, a angústia reflete a profunda incerteza da existência, a luta do sujeito para encontrar significado em um mundo onde as escolhas são inevitáveis, mas sempre ameaçadoras.


Para Kierkegaard, a autenticidade é alcançada através da "síntese do eu", onde o sujeito, ao assumir a responsabilidade por suas escolhas, encontra um sentido de integridade pessoal. No entanto, essa autenticidade é sempre ameaçada pela angústia, que revela a fragilidade da existência humana. Lacan, por outro lado, questiona a possibilidade de uma autenticidade plena. Para ele, o sujeito está irremediavelmente alienado na linguagem e no desejo do Outro, o que torna a noção de um "Eu autêntico" um ideal inalcançável.A subjetividade em Lacan é marcada pela alteridade; o sujeito é sempre dividido, nunca plenamente consciente de si mesmo. Kierkegaard, apesar de buscar uma síntese do Eu, reconhece que essa síntese é constantemente ameaçada pela angústia e pelo desespero. Assim, ambos os autores concluem que a subjetividade é um processo em constante movimento, nunca fixo ou estável.


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